Distrito Industrial ou taba?

O prefeito de Guaíba, Henrique Tavares (PTB), talvez precise contratar alguma empresa especializada em cultos indígenas para afastar a maldição da “área da Ford”. Desde que a montadora foi expulsa do Rio Grande do Sul que Guaíba luta para não perder aqueles 970 hectares para as guanxumas e maricás. Quem sabe uma pajelança das boas, apoiada por um pajé autêntico e conhecedor de rituais que se comuniquem com Nhanderu – o ser supremo dos guaranis – possa resolver, definitivamente, a questão que envolve o futuro daquele município? Pois não é que bastou a governadora Yeda Crusius transformar a “área da Ford” em Distrito Industrial de Guaíba, e com tal decisão despertasse o interesse de seis grandes empresas, para que a Funai protestasse e reivindicasse o local como reserva indígena? Ninguém acredita que os índios guaranis, verdadeiros donos do local, segundo um estudo antropológico que serviu de base para a Funai se manifestar, possam estar a serviço de alguma manobra pré-eleitoral para desestabilizar o projeto de Yeda Crusius. No entanto, foi a própria governadora quem viu esse fantasma quando escreveu no seu blog que “são os mesmos de sempre, que conhecemos quando governaram, que voltam a assombrar as perspectivas que o Rio Grande tem com as novas e modernas empresas de Guaíba”. Um dia após o anúncio da criação do Distrito Industrial, o prefeito Henrique Tavares era solicitado a se manifestar sobre o assunto, a pedido da Funai. Chama a atenção a pressa, por que na mesma área já existe um empreendimento da Toyota, que tem um centro de distribuição dos veículos produzidos na Argentina, vindos de sua fábrica em Zárate. Nem mesmo quando o governador Antonio Britto desapropriou a área para a Ford, viu-se qualquer manifestação da Funai. Ora, se os 970 hectares do Distrito Industrial são, realmente, de propriedade dos guaranis, a melhor ocasião para reivindicar o local teria sido em 1999, quando a área ficou conhecida de todos. De repente, descobre-se, por um estudo acadêmico recente, que os guaranis são os reais proprietários dos 970 hectares transformados em um grande projeto que visa ao desenvolvimento de Guaíba e de toda a região. O coordenador da Funai em Porto Alegre, João Maurício Farias, diz que a polêmica sobre a área se deve ao período de pré-campanha eleitoral. Ele, provavelmente, tenha razão. Mas, se a questão cheira a briga político-eleitoral, é bom deixar os guaranis fora dela. Nossos índios talvez até sonhem com uma taba ali em Guaiba, entretanto desconfiam muito do homem branco e de suas pajelanças eleitorais.

Mula enterrada

Dizem os mais antigos que quando um município é azarado no seu progresso é porque tem mula enterrada na praça principal. Não sei se em Guaíba há quem acredite nisso. Com os índios dá-se o contrário. Tudo o que é enterrado pode se transformar em dádivas de Tupã. Há muitas lendas indígenas que falam das lágrimas das mulheres. A fruta do guaraná, por exemplo, brotou dos olhos de um indiozinho, depois que o menino morreu, mordido por uma cobra, na verdade seu pai, Jurupari, que, não suportando a beleza do filho, se transformou no réptil assassino. A mãe chorou sobre o túmulo e ali nasceu o guaraná.

Esta terra tem dono

Assim falava Sepé Tiaraju na defesa de nosso solo gaúcho lutando contra os espanhóis, onde morreu na Batalha de Caiboaté, em São Gabriel. Sepé Tiaraju era guarani e até foi considerado um santo, mesmo sem o reconhecimento da Igreja Católica. Tanto que temos o município de São Sepé. Não se sabe ainda até que ponto a Funai se inspirou no grande chefe guarani para exigir as terras destinadas ao Distrito Industrial de Guaíba. Ou teria sido o estudo antropológico, valendo da jurisprudência do imortal Sepé Tiaraju? Mas Sepé Tiaraju, se vivo estivesse, deixaria os seus irmãos servirem de massa de “manobra pré-eleitoral” para atingir a Grande Irmã Branca Yeda?

A mandioca

Outra lenda indígena conta que uma indiazinha, mas de pele muito branca (?), foi criada longe da tribo porque sua mãe engravidara de maneira misteriosa. Expulsa da aldeia, a mãe, filha de um cacique tuxaua, criou a menina até os 3 anos de idade. De repente, sem ter adoecido, a indiazinha chamada Mani, morreu também de forma misteriosa. A menina foi enterrada ao lado da oca em que vivia e sua mãe chorou por muito tempo. Onde caíram suas lágrimas nasceu uma planta com raízes grossas que, sem casca, era muito branca e saborosa como alimento. Os índios a chamaram de mandioca, que também é conhecida como macaxeira ou aipim.

Pajelança

Há uma piada que circula em Guaíba que diz que se o prefeito Henrique Tavares fizer uma pajelança moderna talvez o Distrito Industrial brote rapidamente na área dos 970 hectares. Bastaria enterrar pneus, cruzetas, monitores de vídeo, modens, chips, chaves de roda, esses objetos da modernidade industrial, para que germinassem indústrias com milhares de novos empregos para brancos e índios. E haveria só uma exigência dos céus: a terra deveria ser regada com as lágrimas de mil virgens. Em tempos de BBB, de pulseirinhas do sexo, de crack, de vida de modelos e manequins, o Distrito Industrial de Guaíba correria um grande risco de virar uma taba.

Originalmente publicado no Correio do Povo.

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