Transmissão da Rádio Gaúcha contra a demarcação de Terra Tradicional Guarani

Até mesmo o apresentador do programa, Lasier Martins, chama de “absurdo dos absurdos” a  possibilidade de demarcação da Terra Tradicional Guarani no município de Guaíba.

Apresentador, Lasier Martins – A FUNAI estaria querendo entregar a área em Guaíba a uma reserva indígena, o que está causando perplexidade e apreensão à população da Guaíba, que já conserva uma terrível frustração, acontecida há 12 anos, quando a mais desastrada ação governamental espantou a Ford do RS.
Repórter, Guilherme Gomes – Marcado por esta desistência da Ford este terreno no entorno do Arroio do Conde em Guaíba parecia ter encontrado um destino definitivo e se livrado das polêmicas. Em março a governadora Yeda Crusius oficializou a transformação da área, que passou a ser o Distrito Industrial do município. Esta informação de que a FUNAI está fazendo um levantamento para averiguar se o terreno foi ocupado por índios guaranis na década de 70 pode levar a uma insegurança jurídica os empresários que desejam se instalar ou já se instalaram no local. Isto, porque a Fundação e o Ministério da Justiça pode definir pela desapropriação para demarcar uma reserva indígena. Uma decisão está prevista para acontecer em junho, depois que a FUNAI receber um estudo completo e também abrir espaço para as contestações. Mas para evitar a desmobilização dos investidores, políticos de Guaíba e também do Estado estão prometendo pressionar para evitar esta transformação. O prefeito Henrique Tavares, em entrevista nesta manhã no Gaúcha Atualidade, prometeu um levante para evitar uma nova decepção para os moradores da cidade e também da região.

Prefeito de Guaíba, Henrique Tavares – Eu acredito que a possibilidade de ir adiante uma ideia destas é muito remota. Mas isto (?) tem autorizado a realização de tais estudos. Se esta questão não for decidida em curto espaço de tempo, pode ter certeza que faremos um levante, não só em Guaíba, mas em toda a metade sul do estado, especialmente nos municípios envolvidos diretamente com o problema. (sonora)
Repórter, Guilherme Gomes – A governadora Yeda Crusius também, no final desta manhã, se manifestou sobre o tema e disse que espera um bom senso de todos neste caso.
Governadora do estado, Yeda Crusius – Espero que não se materialize. Na entrevista que o prefeito de Guaíba deu hoje, ele diz tudo. Esta possibilidade de aquilo ser lá no passado um sítio histórico indígena não apareceu há 12 anos atrás, quando mandaram a Ford embora para a Bahia. Agora, 12 anos depois, quando está tudo preparado para a criação de emprego, para a inovação em tecnologia, fazer aquilo que o Estado tanto queria fazer, que é uma fábrica de pneus, não existe. De novo, 12 anos depois, surge, como se fosse uma ameaça… O prefeito de Guaíba, na sua entrevista, mostrou que não consegue entender porque ficou dormindo 12 anos e na volta do desenvolvimento de Guaíba tem alguma coisa que possa ameaçar o desenvolvimento do Estado a partir de Guaíba. Eu espero, até escrevi um texto a respeito, que esta insegurança que de vez em quando vem, seja logo afastada. (sonora)

Repórter, Guilherme Gomes – A FUNAI ainda não deu muitos detalhes sobre estes estudos. O coordenador da Fundação aqui em Porto Alegre admite que a questão política prejudica a discussão.  João Maurício Farias ressalta que para ver a transformação de uma área em reserva indígena é preciso uma série de fatores.

Coordenador da FUNAI em Porto Alegre, João Maurício Farias – Sítios arqueológicos têm em toda a região. Acho que a FUNAI não sai fazendo aventura de qualquer área, transformando em terra indígena. Precisa ver se ela contempla as condições de transformar ela em indígena. (sonora)

Repórter, Guilherme Gomes – O coordenador da FUNAI disse ainda que vários estudos estão em andamento entre Viamão e Camaquã, mas nada é conclusivo. Ele lembrou ainda que a Praça da Alfândega, em Porto Alegre, também tem registros de ocupação indígena, mas que não tem como ser transformada em reserva. Seis empresas já confirmaram investimento no Distrito e outros três empreendimentos podem ser anunciados ainda nas

Apresentador, Laier Martins – Alô, deputado Márcio Biolchi. Boa tarde!
Ex-secretário Estadual do Desenvolvimento e Assuntos Internacionais, Márcio Biolchi – Boa tarde. É uma satisfação falar com o amigo.

Apresentador, Lasier Martins – Deputado, como o senhor está envolvido com esta questão e até poucos dias era secretário do Desenvolvimento, é importante ouvir uma palavra sua. Como foi acontecer isto de que agora, de repente, uma cogitação vinda de cima, e que precisa muito bem ser explicada, saber quem está por trás disso, por que levantar este absurdo exatamente na hora em que seis empresas já se comprometeram de instalar-se naquela área, e a gente sabe que não poderão ficar esperando as burocracias, poderão mudar de ideia e irem localizar seus projetos em outra parte. Como aconteceu tudo isto? Nos conte.

Ex-secretário Estadual do Desenvolvimento e Assuntos Internacionais, Márcio Biolchi – Na verdade, fomos todos pegos de surpresa. Eu relato aqui a particularidade de sábado pela manhã, logo após a publicação da ZH comecei a receber telefonemas de alguns empresários que firmaram compromissos com o Governo do Estado. Todos, de uma maneira ainda muito tranquila, dizendo que as suas pretensões continuam firmes, mas o nosso receio, e nós não somos contra a questão indígena, é a insegurança jurídica que pode se causar em torno desta área. No momento em que se faz um investimento, mobilizam-se recursos, também se busca garantias de que não vai haver nenhum contratempo, não só nas obras, mas no próprio negócio, nos empregos que serão gerados. Este é o tom da preocupação. Nós não somos contra que haja este cuidado com a própria cultura indígena, num estado que teve seu interior todo povoado pelos povos indígenas, mas traz esta preocupação. O RS tem várias áreas que justamente agora, onde nós tivemos o anúncio de 2,5 mil empregos. Serão 2,5 mil famílias, não só de Guaíba, mas de toda a região metropolitana, com oportunidades de sustentação. Com mais algumas outras empresas, porque também foi reposicionado o Distrito. Hoje nós temos a expectativa de que outros negócios possam se aportar aqui em Guaíba. Até extrapolo um pouco, não querendo supervalorizar o fato, mas não é só a área de Guaíba, isto tem um significado na política de atração de investimento do Estado no RS como um todo. Nós competimos com outros estados para que estas empresas viessem para cá e desta vez nós ganhamos. Foi todo um esforço, um trabalho que eu relato de quase dois anos. Inclusive, lembro-me do dia em que nós fizemos o plano diretor da área industrial de Guaíba, e que o amigo, tu, junto com o presidente da época, fizeram uma reportagem tratando desta revitalização, ainda naquela época como um projeto. Foram dois anos de trabalho silencioso, mas objetivo, que trouxe um resultado eficaz, inclusive, avanço, que as empresas estão correndo para que todo o processo burocrático seja cumprido, para que iniciem as obras de maneira rápida, inclusive com algumas empresas tocando este processo para iniciar a obra já que, inclusive, no caso de uma, os recursos já estão depositados em conta para fazer o investimento em Guaíba, ou seja, não é um projeto, não é um sonho. O que estamos tratando é de uma ameaça, que não acredito que vá se incentivar. Acho que o Guilherme expôs muito bem. Como o exemplo da Praça da Alfândega, nós temos que dar uma determinado nível de garantia, de previsão para que estas empresas não tenham seus projetos questionados e não prejudiquemos o preenchimento restante da área, já que o secretário José Barbosa, o Governo do Estado, vem trabalhando no sentido de esgotar a área do Distrito Industrial de Guaíba também com outros investimentos.

Apresentador, Lasier Martins – Nós estamos apenas investigando inicialmente, porque também não acreditamos que sito vá realmente se concretizar. Seria o absurdo dos absurdos. Já basta o maior golpe que a economia do Estado sofreu quando mandaram embora a Ford e as inúmeras empresas que estavam se preparando para ali se instalarem. Lembrando que a Goodyear que iria também para Glorinha. E eu jamais esqueço do discurso do vice-presidente da Goodyear, quando tivemos no norte dos Estados Unidos, depois de temos passado por Detroit e recebermos um jantar do presidente mundial da Ford, onde, com euforia, ele contava o que pretendia fazer ali em Guaíba, e depois houve a frustração total. Depois fomos para Akron para ouvir do vice-presidente da Goodyear que tendo uma fábrica de automóveis de um lado do rio e outra do outro lado fariam em Glorinha a maior fábrica de pneus do Brasil. Tudo isto se foi por água abaixo por aquela estupidez cometida com a Ford, que acabou indo para Bahia, e transformou Camaçari na mais importante cidade da Bahia, com 5 mil funcionários atualmente, sem falar nas outras empresas que lá estão cercando. Não é possível que alguém vá bater de novo o ânimo da região de Guaíba, tirando dos investidores para entregar para uma reserva indígena. Os índios merecem todo o respeito, mas há outro lugares onde instalá-los. Por natureza, a gente sabe que os índios são muito leais, eles não são maldosos, apenas quando são provocados. Mas como a FUNAI não índios na sua direção, tem brancos, pode se esperar de tudo.

Ex-secretário Estadual do Desenvolvimento e Assuntos Internacionais, Márcio Biolchi – Nós temos 2,5 mil empregos já firmados nesta área. Esta área tem um potencial logístico de posicionamento tremendo. Nesta agenda de consolidação do Distrito de Guaíba, nós podemos chegar a ter em Guaíba mais de 5 mil empregos. As seis empresas que anunciaram nos apresentaram seus projetos iniciais, aqueles projetos no prazo razoável de tempo, de dois a três anos a serem concluídos. Mas todas elas com expectativa também de expansão. Acho que nós podemos estar lamentando esta ameaça para 2,5 mil. Mas como tu bem dissesse, a Ford, na época, se não me falha a memória, eram 1,9 mil e hoje são 5 mil. Fora aquilo que gera fora deste distrito. Acho que deva haver razoabilidade nestas decisões. A causa indígena não pode ser uma causa descolada da sociedade, a ponto de fazer dela uma causa desapoiada. Todos nós somos sensíveis. Mas tu dissestes bem, nós temos outras áreas.

Apresentador, Lasier Martins – Não poderiam nem ter levantado esta questão. Não poderiam
nem ter cogitado do susto que estão dando à região toda de Guaíba. Já nisto está tudo errado.
Ex-secretário Estadual do Desenvolvimento e Assuntos Internacionais, Márcio Biolchi – Nós temos uma forma um pouco mais racional de resolver estas coisas. Eu lembro que (?) chegou a ser um clube de japoneses, que na época até houve uma mobilização muito grande pela desapropriação. Eu estive várias na área. Visitei, inclusive, o local onde era o clube. Vi algumas ruínas do antigo clube. Se não me falha a memória, haviam projetos de condomínios. Várias coisas já passaram por ali e não se concretizaram. Com muito respeito aos que ali estiveram, acho que nenhuma teve uma importância social e econômica estamos tendo por parte do distrito.
Apresentador, Lasier Martins – Acho que está na hora do Governo imediatamente fazer uma consulta. O que houve? O que a FUNAI está pensando? Para que a situação se torne bem clara a todos. Obrigado, deputado.

Ex-secretário Estadual do Desenvolvimento e Assuntos Internacionais, Márcio Biolchi – Obrigado, Lasier. Um abraço!

Originalmente transmitido no programa Gaúcha Reporter da Rádio Gaúcha em 26/04/2010

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Uma resposta para “Transmissão da Rádio Gaúcha contra a demarcação de Terra Tradicional Guarani

  1. Luiz Henrique Cardoso

    São mesmo uns caras de pau! Tratando os índios como se fossem um problema, impedindo-os de viver e mentindo para todo mundo sobre essas empresas que sempre vão vir de não se sabe onde para resolver o problema do desemprego, mas nunca resolvem nada! Esse Lasier Martins tinha que ser processado! Será que não tem nenhum advogado envolvido na causa indígena que possa buscar justiça nesse caso!?

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